A diálise não se apagou

Cerca de 92 por cento dos portugueses que padecem de Doença Renal Crónica e que fazem hemodiálise são tratados diariamente em clínicas privadas em todo o país. Este é um tratamento que recorre a recursos humanos e equipamentos reconhecidamente de topo mundial e que diariamente salvam vidas. Por essa razão, não pode parar e, de facto, não para. Nem nas circunstâncias mais adversas.

Foi assim durante a pandemia da covid-19, durante a qual os doentes continuaram a receber os seus tratamentos com a qualidade e dedicação de sempre e onde foram administradas as diversas doses de vacinas. E voltou a ser assim, na semana passada, durante o acontecimento que tem sido referido como “apagão”, que deixou o país sem eletricidade, telecomunicações e em algumas zonas do país, sem água.

Durante as cerca de doze horas que durou a falha de energia sem razão conhecida, as mais de 120 clínicas de diálise responsáveis por tratar cerca de 13 mil doentes, continuaram a efetuar os tratamentos previstos. Este cenário apenas foi possível devido ao uso de geradores, cuja compra, manutenção e abastecimento em termos de combustível é da inteira responsabilidade das clínicas. Nos casos em que o combustível começou a parecer não ser suficiente, valeu às clínicas o trabalho em rede, uma vez que foi possível manter alguma comunicação e garantir a cooperação entre clínicas.

Ao longo de todo o país foi possível fazer 3 ou 4 turnos de diálise por clínica. O papel essencial da hemodiálise na vida de milhares de portugueses nunca teve em causa durante o dia 28 de abril. Mas mais algumas horas poderiam ter colocado em risco esta população necessitada de cuidados life saving.

Com efeito, e para minha continua surpresa, as clínicas de diálise não fazem parte da Rede de Emergência Nacional, não contando, na prática e em dias de possível risco para os doentes, com o apoio dos atores centrais nacionais em caso de emergência. Além de não contarem com contactos e apoios proativos das autoridades competentes, salvo algumas exceções, a verdade é que a associação que representa estas clínicas e cuja direção eu encabeço, não obteve até hoje resposta ao pedido de apoio e clarificações feito à Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil.

Além dos hospitais, justificadamente protegidos neste tipo de ocasiões e sempre no foco dos atores políticos, também as clínicas de diálise, que atuam em complementaridade e em estreita ligação com o SNS, devem ser exaltadas, pelo trabalho essencial que fazem e devem ter o apoio necessário e conveniente ao invés de serem deixadas à sua sorte, por muito que a sua sorte seja feita com competência e com recurso a planos sólidos feitos pelas clínicas, que partilham as suas boas práticas.

Na semana passada, os tratamentos previstos foram feitos e doentes, cuidadores e profissionais de saúde puderam ter um dia tão normal quanto possível. Quando a eletricidade falhou e mesmo sem saber a razão da falha e sobretudo quando seria reposto o funcionamento da rede, as clínicas ativaram os seus geradores e continuaram a sua missão em resiliência isolada.

Mas fica a pergunta central. Como será numa próxima vez se a eletricidade falhar por mais tempo?

Paulo Dinis, Presidente da ANADIAL

Publicado, a 19 de maio de 2025, em: A diálise não se apagou – Expresso