Em Portugal, apesar da elevada qualidade dos tratamentos de diálise, esta não tem sido acompanhada por um reconhecimento proporcional por parte das autoridades competentes, nomeadamente do Ministério da Saúde. Numa altura em que a saúde passa por vários desafios, e não faltam exemplos menos positivos, quero fugir do autoelogio, mas peço mais atenção a um caso positivo, que pode muito bem deixar de o ser.
Os centros privados são responsáveis pelo tratamento de 90% dos doentes renais crónicos em hemodiálise, tendo um papel absolutamente central na vida de mais de 13 mil pessoas, diretamente, sem contar com as suas famílias, igualmente impactadas pela doença e pela forma como os tratamentos obrigam a um investimento de tempo e deslocações. Ainda assim, os responsáveis dos centros nunca foram recebidos por um Ministro da Saúde, nem tão pouco há um reconhecimento do trabalho feito nos últimos quarenta anos.
Nos anos 70, por exemplo, um português que tivesse necessidade de fazer hemodiálise tinha, na melhor das hipóteses, de transferir a sua vida para Espanha. Os centros privados vieram trazer uma lógica de tratamentos de qualidade, numa relação de proximidade.
Em 2008, o Ministério da Saúde negociou com os prestadores um modelo de captação que denominou como Preço Compreensivo. Desta forma, foi acordado um valor por doente, permitindo ao Estado prever o custo dos tratamentos e entregá-los a quem melhor os pode fazer. Os privados também passaram a ter um “orçamento” para gerir da melhor forma para o doente. Desde essa altura, o preço nunca subiu, apesar de tudo o resto ter aumentado.
Desde 2008, os centros privados prestam um serviço de qualidade mundial que inclui uma série de extras, que vão além do acordado com o Estado. Além do principal, os tratamentos de ponta, sempre na vanguarda, os centros disponibilizam, por exemplo, lanches, que além de serem um conforto, são, em muitos casos, a única refeição diária dos doentes. Foram também incluídos tratamentos noturnos, para benefício de alguns doentes, respondendo à possibilidade e exigência por uma questão de vida profissional ou até porque os seus corpos reagem melhor.
Os preços de tudo o que é necessário para garantir os tratamentos dos doentes não param de aumentar. Ainda assim, há duas coisas que permanecem inalteradas: a qualidade dos serviços prestados pelos centros – que nunca falhou, nem durante a pandemia, nem durante o recente apagão – e a forma como os sucessivos governos portugueses os ignoram.
António Neves, Secretário-Geral da ANADIAL
Publicado, a 20 de agosto de 2025, em: Diálise: alta qualidade, baixo reconhecimento