O cenário hoje tem sido de continuidade dos tratamentos, mas muito provavelmente não o será por muito tempo.
As clínicas privadas de diálise tratam, em complementaridade com o Serviço Nacional de Saúde, mais de 90% dos 13 mil portugueses que sofrem de Doença Renal Crónica e que fazem hemodiálise.
A Doença Renal Crónica é segundo dados da Sociedade Internacional de Nefrologia a 7.a principal causa de morte, a nível global, entre as doenças não transmissíveis, estimando-se que cerca de 850 milhões de pessoas vivam com esta enfermidade em todo o mundo. Em Portugal, os dados apontam para cerca de 9,8% da população adulta, sendo elevada a taxa de incidência e doentes com doença renal crónica no estádio mais avançado que se encontram a realizar tratamento na modalidade de hemodiálise.
Aos longo das décadas, as clínicas têm feito o seu papel, quase sempre indo além das suas obrigações, para fornecer um serviço de qualidade mundial, adaptando-se às necessidades dos doentes, quer em termos de horários, quer em termos da disponibilização de algum conforto complementar, nomeadamente através da disponibilização de refeições leves, que em alguns casos são as únicas do dia. Estando próximo dos doentes, nomeadamente em zonas do interior de Portugal.
Ainda assim, as clínicas continuam a ser ignoradas pela própria tutela, que não recebe os seus responsáveis nem mostra abertura para discutir a atualização do preço compreensivo (valor fixado unilateral e administrativamente pelo Estado como pagamento a um prestador de serviços de saúde para tratar um grupo de doentes), uma atualização que não se verifica há 17 anos, sujeita às reduções impostas pela troika, mesmo com tudo o que compõe o tratamento a subir exponencialmente de valor.
O cenário hoje tem sido de continuidade dos tratamentos, mas muito provavelmente não o será por muito tempo, nos termos de qualidade e satisfação presente, uma vez que, como já aconteceu recentemente em dois casos, algumas clínicas podem fechar e deixar de servir os doentes. Cada operador definirá o seu futuro como bem entender, mas a cristalização do preço compreensivo (não atualizado há 17 anos), a escassez gravíssima de recursos humanos, os aumentos brutais da medicação, o aumento de todos os outros custos de produção (energia, água, etc), aponta para cenários muito preocupantes.
Com conversas construtivas e vontade política para enfrentar o tema, ainda vamos a tempo de salvar a diálise em Portugal. A medida urgentíssima imediata será a reposição dos cortes da troika, para que a seguir possamos definir e assegurar a próxima década aos doentes renais crónicos.
António Neves, Secretário-Geral da ANADIAL
Publicado, a 25 de outubro de 2025, em: Salvar a diálise ou 13 000 vidas em risco – Observador