2040 pode parecer uma data distante, mas em áreas de atuação que exigem planeamento estratégico de longo prazo, como a saúde, não o é. As decisões tomadas hoje demoram anos a produzir efeitos. Por isso, importa refletir sobre os desafios que a diálise enfrenta atualmente e que, se não forem resolvidos, poderão comprometer a capacidade de resposta do sistema nas próximas décadas.
Em Portugal, as clínicas privadas asseguram o tratamento de cerca de 92% dos doentes com doença renal crónica que necessitam de diálise. Trata-se de uma rede essencial para o Serviço Nacional de Saúde e para milhares de portugueses que dependem destes cuidados para sobreviver.
Um dos fatores mais determinantes para a qualidade dos tratamentos é o fator humano. Os enfermeiros que acompanham os doentes em diálise desempenham um papel central não apenas do ponto de vista clínico, mas também emocional. São profissionais que acompanham pessoas durante anos, criando relações de proximidade, confiança e apoio. Contudo, o número de enfermeiros disponíveis para esta área tem vindo a diminuir. Sem profissionais qualificados, não há capacidade para garantir tratamentos seguros e de qualidade. É urgente criar condições que permitam atrair e reter estes profissionais.
A questão da atratividade está diretamente relacionada com a sustentabilidade financeira do setor. Após 18 anos sem atualizações significativas, o chamado preço compreensivo da diálise sofreu apenas uma revisão limitada, insuficiente para acomodar o aumento dos custos com recursos humanos, energia, equipamentos, consumíveis e inovação tecnológica. As clínicas são hoje confrontadas com exigências crescentes de qualidade e segurança, sem que exista uma atualização adequada dos mecanismos de financiamento.
Ao mesmo tempo, a população portuguesa continua a envelhecer e a incidência de doenças como a diabetes e a hipertensão mantém-se elevada, aumentando o risco de doença renal crónica. Tudo indica que a procura por tratamentos renais substitutivos continuará a crescer nas próximas décadas.
Quando falamos de 2040, a questão não é apenas quantos doentes teremos para tratar. A verdadeira pergunta é se teremos profissionais suficientes, unidades sustentáveis e capacidade instalada para responder às necessidades da população. Sem investimento, planeamento e visão estratégica, corremos o risco de chegar a essa data com menos capacidade de resposta precisamente quando mais dela precisarmos.
A diálise portuguesa é hoje reconhecida internacionalmente pelos seus resultados clínicos e pela qualidade dos cuidados prestados. Preservar este património exige decisões corajosas no presente. Porque a diálise que teremos em 2040 começa a ser construída agora. Estes temas foram recentemente debatidos num evento da ANADIAL, para o qual foram convidados o Ministério da Saúde, a Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde (DE-SNS), a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) e a Direção-Geral da Saúde (DGS). Não foi, contudo, possível contar com a participação destas entidades, o que, lamentavelmente, limitou um diálogo direto e conjunto sobre matérias de inegável relevância, cuja discussão beneficiaria de um envolvimento institucional mais ativo.
Paulo Dinis, Presidente da ANADIAL
Publicado, a 19 de junho de 2026, em: Que diálise vamos ter em 2040?